BILHETE POSTAL
Por Eduardo Costa
Em 2005 participei em São Paulo (Brasil) numa das cimeiras da União Europeia com os países do bloco do Mercosul, atualmente composto por Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.
Percebi que nada de concreto estava a ser negociado. Mesas de conversa sobre vários temas, conclusões, nada mais.
Na altura os países da América do Sul estavam a procurar criar um modelo próximo da União Europeia, para se distanciarem dos EUA. Curiosamente, numa reunião preliminar foi apontado o nome de União Sul-Americana. Lembro que o embaixador da Argentina chamou a atenção de que a abreviatura seria USA (quando a ideia era, precisamente, a de deixarem de ser o ‘seu quintal’). Foi então adotada a designação UNASUL (UNASUD, para os países hispânicos). Alguns países vieram posteriormente a não subscrever por pressão dos EUA, ao que constou, e a iniciativa não avançou.
Por que lembrar este episódio passado? Por que foi precisamente a política da América de Trump que deu força ao acordo agora decidido, perante a necessidade de procura de novos parceiros pela UE.
De um lado a deterioração das relações do parceiro ‘de sempre’ da Europa Ocidental, os Estados-Unidos, e, do outro lado, a ideia dos EUA de recuperaram o ‘seu quintal’ (os países do continente americano).
E assim se apressaram as negociações para criar uma das maiores zonas de livre-comércio do mundo.
Dizem os europeus, incluindo o presidente do Conselho Europeu, António Costa, que vai ser muito bom para o futuro da UE. A ser assim, quase se pode dizer que ‘há males que vêm por bem’…
Esperemos que sim.. Pelo menos é um sinal de que há vida para além da dependência inequívoca dos americanos. Que não está a correr nada bem.
Eduardo Costa, jornalista, presidente da Associação Nacional de Imprensa Regional
(Este artigo de opinião semanal é publicado em cerca de 50 jornais)